domingo, 21 de setembro de 2014

9º Registro

31 de maio de 2014, sábado.
19:15

Hoje de manhã saí de casa para comprar alguns enlatados. Caso haja uma ordem de retirada em massa, não quero ser pego desprevenido. Quando cheguei no supermercado vi uma cena que não se repetia desde quando a polícia fez greve no começo do ano passado. Dezenas pessoas estavam saindo correndo do Extra com várias sacolas penduradas nas mãos, enquanto outras jogavam compras de qualquer maneira na mala de seus carros. A Polícia havia chegado para pôr ordem no local, mas isso não foi uma boa ideia, na verdade, foi uma porra de uma péssima ideia. Como sempre numa confusão, ninguém sabe quem atirou a primeira pedra. A chuva de garrafas de vidro e pedras em cima dos policiais foi violenta. Vi quando uma garrafa bateu na cabeça de um deles, derrubando-o e deixando-o inconsciente. Após isso, os PMs começaram a atirar para tentar conter a multidão.

Não eram balas de borracha.

Um fotógrafo com um fusca estampado na sua camisa juntamente com as inicias JT Fotografia, estava tirando fotos do tumulto e foi atingido no meio da testa por uma bala perdida, caiu ali mesmo no chão, sem ao menos saber o que tinha acontecido. Uma mulher grávida saía correndo do supermercado segurando um pacote de nuggets numa mão e uma garotinha na outra, foi atingida em cheio na barriga. Caiu no chão agonizando, com jatos de sangue saindo de sua boca, enquanto a garotinha chorava freneticamente ao seu lado tentando estancar a hemorragia, mas tarde demais, fora atingida na têmpora por um disparo.

As pessoas que tentavam fugir pela rua eram brutalmente atropeladas pelos carros e ônibus, enquanto algumas outras que estavam no segundo andar do shopping tentavam pular, mas essas apenas caíam no térreo, com as pernas quebradas e sem ao mínimo poder andar, apenas  gritando e clamando por ajuda.

Vi uma senhorinha cair e ser cruelmente pisoteada pela multidão que corria desesperadamente para fugir daquele inferno. Para todo lugar que eu olhava apenas conseguia ver medo e sentir o cheiro do sangue subir pelo ar. Deus, eu precisava sair daquele lugar.

Então fiz o que tinha de fazer, entrei no supermercado e comecei a estocar enlatados e garrafas d'água dentro de minha mochila e em uma cestinha.

Consegui sair de lá e fui direto para casa. Deixei tudo em cima da mesa e fui para a casa dos meus amigo. Letícia e Gê estavam na sala assistindo o noticiário, que não parava de ser interrompido por comunicados do exército. Enquanto Humberto estava mexendo em seu notebook. Ele falou que os fóruns da internet estão pegando fogo e os pregadores do fim do mundo estão se deliciando nos blogs.

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