10 de abril de 2015. (sexta-feira)
08:00
Já fazem exatos 10 meses que não escrevo aqui. Muita coisa aconteceu desde que decidimos abandonar a cidade para tentar sobreviver em um local menos habitado. De início escolhemos uma pequena praia no litoral norte, pois estávamos desesperados para sair de Natal.
Durante os primeiros dias ficamos em casas abandonadas, sobrevivendo a partir dos suprimentos que tínhamos levados nas mochilas cargueiras. Mas com o passar das semanas, a comida e a água foram se esgotando, de modo que viramos nômades, passando a rumar de um local para outro com um único só objetivo. Sobreviver.
Encontrávamos pessoas de vez em quando, mas nunca procurávamos ter algum tipo de contato com elas, pois sabíamos que numa situação de emergência poderíamos ter que mata-las para roubar seus suprimentos. Agora era assim que as coisas funcionavam no planeta, os Mordedores juntamente com as pessoas também eram ameaças.
Alguns dias atrás estávamos todos dormindo em uma casa abandonada. Era minha vez de ficar de vigia durante a noite. Após três horas de tédio, não fazendo nada além de ler um livro a luz de velas, escutei barulhos que vinham do cômodo onde guardávamos a comida. Lembrei que tínhamos deixado as janelas destrancados. Me levantei com cautela e fui até lá para saber o que estava acontecendo.
Espreitando pela brecha da parede, vi uma mulher com a cabeça encapuzada vasculhando nosso estoque de comida. Imediatamente soube o que estava acontecendo e fui me aproximando para tentar agarra-la desprevenida. Porém, quando já chegava perto o suficiente para lhe dar um soco em sua nuca, ela se vira com uma arma em suas mãos. Me afastando lentamente, ela fez um sinal para a sua esquerda, me virei e dei de cara com um homem apontando um revólver para mim. Tentei conversar baixo para não acordar os outros. Disse que poderiam pegar o que quisessem, desde que partissem sem machucar qualquer um de nós. Mas nesse exato momento uma flecha atravessou a cabeça da mulher. Olho para trás e me deparo com o Gê, e em suas mãos, a Crossbow.
Tudo aconteceu muito rápido, depois da mulher ser atingida por uma flecha e cair no chão, o homem gritou e começou a atirar contra meu amigo. Aproveitando a chance, corri e peguei a arma que estava com a mulher, e, sem pensar duas vezes, disparei 5 tiros no filho da puta que estava atirando enlouquecidamente.
Quando tudo terminou, olhei para o lado e vi meu amigo caído no chão da cozinha. Sua camisa já não era mais branca, mas sim vermelha. Gê tinha sido atingido por dois disparos durante a confusão. Uma bala atravessou seu braço, enquanto outra atingiu a seu tórax. Segundos depois Letícia estava chorando ao seu lado, gritando para que ele não a abandonasse. Eu sabia que ele não iria resistir e sabia o que aconteceria. Vi suas lágrimas tremeluzir em seus olhos, ele me viu, sem dúvida, e viu Letícia antes de morrer. Olhou para nós por um instante e sorriu, sorriu e depois fechou os olhos. Coloquei meus braços em volta de Letícia e choramos como uma criança. Pelo meu amigo, chorei.
Dias depois a Letícia que eu conhecia já não era mais a mesma. Numa certa noite ela estava sentada na praia, com uma garrafa de Jack Daniels numa das mãos e com uma arma na outra. Ela bebeu assistindo a queda de uma estrela cadente, e para aquela estrela ela fez um desejo, desejava a morte, porque sem Gê ela perdeu o pé na vida. Talvez conseguisse sobreviver sem ele, mas não aguentaria viver na solidão. Quando a noite foi caindo adentro, ela engoliu o resto do uísque, jogou a garrafa na areia da praia e explodiu o cérebro. Foi o primeiro suicídio que eu vi.
Não seria o último.
Já fazem exatos 10 meses que não escrevo aqui. Muita coisa aconteceu desde que decidimos abandonar a cidade para tentar sobreviver em um local menos habitado. De início escolhemos uma pequena praia no litoral norte, pois estávamos desesperados para sair de Natal.
Durante os primeiros dias ficamos em casas abandonadas, sobrevivendo a partir dos suprimentos que tínhamos levados nas mochilas cargueiras. Mas com o passar das semanas, a comida e a água foram se esgotando, de modo que viramos nômades, passando a rumar de um local para outro com um único só objetivo. Sobreviver.
Encontrávamos pessoas de vez em quando, mas nunca procurávamos ter algum tipo de contato com elas, pois sabíamos que numa situação de emergência poderíamos ter que mata-las para roubar seus suprimentos. Agora era assim que as coisas funcionavam no planeta, os Mordedores juntamente com as pessoas também eram ameaças.
Alguns dias atrás estávamos todos dormindo em uma casa abandonada. Era minha vez de ficar de vigia durante a noite. Após três horas de tédio, não fazendo nada além de ler um livro a luz de velas, escutei barulhos que vinham do cômodo onde guardávamos a comida. Lembrei que tínhamos deixado as janelas destrancados. Me levantei com cautela e fui até lá para saber o que estava acontecendo.
Espreitando pela brecha da parede, vi uma mulher com a cabeça encapuzada vasculhando nosso estoque de comida. Imediatamente soube o que estava acontecendo e fui me aproximando para tentar agarra-la desprevenida. Porém, quando já chegava perto o suficiente para lhe dar um soco em sua nuca, ela se vira com uma arma em suas mãos. Me afastando lentamente, ela fez um sinal para a sua esquerda, me virei e dei de cara com um homem apontando um revólver para mim. Tentei conversar baixo para não acordar os outros. Disse que poderiam pegar o que quisessem, desde que partissem sem machucar qualquer um de nós. Mas nesse exato momento uma flecha atravessou a cabeça da mulher. Olho para trás e me deparo com o Gê, e em suas mãos, a Crossbow.
Tudo aconteceu muito rápido, depois da mulher ser atingida por uma flecha e cair no chão, o homem gritou e começou a atirar contra meu amigo. Aproveitando a chance, corri e peguei a arma que estava com a mulher, e, sem pensar duas vezes, disparei 5 tiros no filho da puta que estava atirando enlouquecidamente.
Quando tudo terminou, olhei para o lado e vi meu amigo caído no chão da cozinha. Sua camisa já não era mais branca, mas sim vermelha. Gê tinha sido atingido por dois disparos durante a confusão. Uma bala atravessou seu braço, enquanto outra atingiu a seu tórax. Segundos depois Letícia estava chorando ao seu lado, gritando para que ele não a abandonasse. Eu sabia que ele não iria resistir e sabia o que aconteceria. Vi suas lágrimas tremeluzir em seus olhos, ele me viu, sem dúvida, e viu Letícia antes de morrer. Olhou para nós por um instante e sorriu, sorriu e depois fechou os olhos. Coloquei meus braços em volta de Letícia e choramos como uma criança. Pelo meu amigo, chorei.
Dias depois a Letícia que eu conhecia já não era mais a mesma. Numa certa noite ela estava sentada na praia, com uma garrafa de Jack Daniels numa das mãos e com uma arma na outra. Ela bebeu assistindo a queda de uma estrela cadente, e para aquela estrela ela fez um desejo, desejava a morte, porque sem Gê ela perdeu o pé na vida. Talvez conseguisse sobreviver sem ele, mas não aguentaria viver na solidão. Quando a noite foi caindo adentro, ela engoliu o resto do uísque, jogou a garrafa na areia da praia e explodiu o cérebro. Foi o primeiro suicídio que eu vi.
Não seria o último.