quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

16º Registro

10 de junho de 2014, segunda.
15:30

Estamos a salvo, por enquanto.
Vou tentar resumir o máximo possível o que aconteceu desde o dia que os Mordedores (como decidimos chamar as criaturas horrendas) estavam batendo na porta da sala querendo entrar para nos devorar.

Letícia estava chorando e o Gê estava tentando acalma-la de tudo o que estava acontecendo. Enquanto isso, eu e Humberto pegamos duas mochilas (anos atrás eu fiz um mochilão pela América do Sul, de modo que tinha duas mochilas cargueira de 40 litros cada para serem aproveitadas) e começamos a entocar o máximo de suprimentos que as mochilas suportariam. Tínhamos que dar o fora dali urgente e não havia tempo para pensar no que levar. Depois de 10 minutos, já estávamos todos prontos para sair daquele lugar, tranquei a Madame Nora dentro da gaiola de viagem e fomos para a porta da cozinha que dava acesso ao quintal da casa. Abrindo a porta dos fundos com cuidado para não fazer nenhum barulho, eu olhei para ver se tinha algum Mordedor por perto, por sorte todos eles estavam na frente da porta da sala tentando arromba-la, saímos sorrateiramente passando pelo o gramado, e nos preparando para pular o muro. Mas, nesse exato momento, escutei um barulho de madeira se quebrando e deduzi que os Mordedores haviam arrebentado a outra porta. 

Jogamos as mochilas para o outro lado do muro (quintal dos vizinho do lado esquerdo, já que a parede era mais baixa e dava pra passar com mais facilidade) e começamos a pular. Letícia passou primeiro com Madame Nora dentro da gaiola, seguida pelo o Gê, depois foi a minha vez. Mas quando eu estava em cima do muro e fui ajudar Humberto a subir, um pinta nos viu e foi tentar atacar Humberto. Sem pensar duas vezes, pedi o Arakh que estava com o Gê e joguei para a mão de Humberto. Quando o filho da puta aproximou-se de Humberto, ele desferiu um golpe crítico de cima para baixo, partindo a cabeça da criatura em dois, espalhando sangue preto por toda a sua cara. Caralho, ver aquela cena me lembrou de uma série que eu tinha assistido recentemente chamada Vikings. Enfim, depois de ter massacrado a criatura, ele me devolveu o arakh e subiu no muro passando para o outro lado. Quando estávamos "seguros" fomos para dentro da casa do meu vizinho, por sorte a porta dos fundos estava aberta e entramos. Ali moravam mais dois universitários, Cortez e Jhonnathan, que também estudavam na UFRN e faziam o curso de História e CeT. Quando entramos, não havia nenhum sinal deles, imaginei que estavam em alguma das duas Áreas Seguras. O ar da casa estava meio carregado, como se alguém tivesse liberado uma essência positiva no ar. Na parede da sala havia uma frase que continha a seguinte mensagem.

"Da paz e do amor eu quero muito mais 
Não tenho a vida ganha vou correndo atrás 
A luz do seu sorriso pela noite é demais 
Brasil, Jamaica harmonia de paz"

Ficamos um momento parados na sala tentando recuperar o fôlego, pois estávamos com o coração a mil. Depois vasculhamos a casa para ver se achávamos algumas coisas úteis. Após uma breve excursão achamos uma lanterna, um narguilé, vários quilos de maconha e cocaína, e a chave da kombi velha que eles tinham para ir à universidade. Ficamos algum tempo pensando para onde iríamos, pois agora tínhamos um veículo e poderíamos ir para qualquer lugar que quiséssemos. Mas no momento que estávamos planejando isso, ouvimos um barulho estrondoso vindo do lado sul da cidade, como se algum avião estivesse atirando mísseis em alguma coisa. Eu sabia o que era essa coisa, ou melhor, esse lugar.

A Área Segura que fora instalada na Arena das Dunas caiu, tinha certeza que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Imagino o sofrimento que aquelas pessoas estavam passando naquele momento, sendo alvejada pelas próprias pessoas que juraram proteger elas. Naquele momento demos de conta a escolha que fizemos de não ir para lá quando os soldados do exércitos evacuaram todo o condomínio. Não poderíamos mais ficar ali. Em algumas horas aquele lugar estaria tomado por milhares de Mordedores. Fomos para frente da casa ver se a kombi estava estacionada lá.

Ela ainda estava, mas para chegarmos a ela precisaríamos matar pelo menos umas nove criaturas antes de alcançá-la. Lembrei da notícia que a única forma de fazer as criaturas parar era destruindo o cérebro da mesma. Humberto pegou seu arakh, eu uma barra de ferro, Gê um taco de beisebol e a Letícia a Crossbow. Colocamos as mochilas e a gaiola da minha gata perto do portão e  o abrimos.

A primeira baixa foi uma Mordedora que estava do lado da porta da kombi, ela estava só vestindo a parte de baixo da roupa e seus grandes airbags estavam à mostra. Eu até teria apreciado a vista se não fosse pela grande mordida que ela tinha levado em um dos seus seios. Letícia acertou ela com uma flecha na testa (percebi que ela era boa naquilo).

Logo após Humberto decepou a cabeça de um e o Gê esmagou a cabeça de outro com o taco de beisebol. Eu investi num quarto Mordedor, atravessando a barra de ferro pelo olho da criatura. Logo matamos mais quatro Mordedores e jogamos todas as nossas coisas dentro da kombi. Mas quando fui dar a volta para entrar na cabine, um décimo Mordedor apareceu do nada e tentou devorar meu pescoço. A criatura se jogou pra cima de mim e caímos no asfalto. Eu tentava desesperadamente se livrar daquele monstro horroroso, dei-lhe um chute no seu peito e rolei paro o lado. Ficando em pé, atravessei a barra de ferro na sua cabeça e disse gritando "Tá vendo essa barra? Não força ela".

Depois do susto, entrei na kombi e fechei a porta, justamente quando mais criaturas apareciam na frente do veículo. Respirando fundo, coloquei a chave na ignição e girei. Com um ronco no motor, a kombi deu sinal de vida, passei a primeira e demos o fora dali.

Quando estávamos afastados um pouco da cidade, olhei pelo retrovisor e vi um espiral de fumaça preta subir na direção em que ficava a Arena das Dunas, e momentos depois, vi outra faixa que se elevava vindo da Zona Norte. As Áreas Seguras caíram e a cidade sucumbira ao terror, agora só o caos reinava em Natal. Rumamos em direção as praias do litoral norte do estado, onde não haviam tantas pessoas (por enquanto deveríamos nos manter nem longe e nem perto da cidade, pois ainda precisaríamos de recursos de sobrevivência, mas todo cuidado era pouco e deveríamos sempre nos manter em alerta a qualquer coisa que avistássemos). Por sorte a kombi estava com uma boa quantidade de gasolina e chegamos numa praia meio deserta. Ali poderíamos ficar durante algum tempo até pensarmos onde deveríamos ficar definitivamente. Arrombamos uma casa que ficava de frente para o mar e ali nos estabelecemos.

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