05 de junho, quarta.
04:56
Estou sentado, escrevendo isto, enquanto meu coração está batendo a mil.
Na noite de ontem tive consciência de que se não fizesse alguma coisa teria uma surto de estresse. Estava havia trinta e seis horas seguidas trancado em casa, andando de um lado para o outro feito um animal dentro de uma gaiola.
Disse aos meninos que iria dormir. Quieto, fui olhar a rua para ver se via alguma coisa ou alguém, pois já tinha passado do horário permitido de sair. Olhei por cima do muro e fitando os olhos, consegui ver algo se mexer no final da rua. Parecia que era um homem, estava muito escuro e ele estava muito longe, mas posso jurar que ele parecia cambalear sobre uma perna. Olhei para um lado e para o outro e me certifiquei de que não havia mais ninguém nua rua. Cauteloso como um gato, abri o portão e fui falar com o cara. Estava de costas e quando cheguei perto o bastante, chamei-o com um "Olá". Ele parou olhando para as estrelas (tive a entender que ele era meio surdo e não sabia distinguir de onde vinha a minha voz). Toquei com minha mão em seu ombro para ele se virar e quase me caguei com o que eu vi. Seu rosto estava desfigurado, havia um rastro de sangue seco saindo de sua narina e de seus olhos (um aliás, já que o outro era apenas um glóbulo vazio). A parte esquerda do seu rosto estava podre com pequenas larvas brancas desfilando sobre seu semblante horrendo. Também reparei que sua perna esquerda estava com uma ferida bem fodida (agora entendi porque ele parecia se arrastar quando andava). Quando ele me viu quis me atacar, soltei um grito e dei-lhe um chute em sua barriga e desatei a correr desesperadamente para minha casa.
Quando cheguei, entrei pelo portão passando direto pela porta da sala, trancando-a com duas voltas (coisa que raramente faço). Fui tomar um banho e colocar uma calça que não estivesse mijada, de modo que agora estou aqui sentado com todas as luzes da minha casa apagadas. Não contei nada a ninguém.
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